Campanha nos EUA aposta em geopropaganda para influenciar eleitores

As campanhas eleitorais americanas deste ano se apoiam em ferramentas digitais que foram popularizadas no Brasil e na Índia: envio em massa de mensagens para eleitores e aplicativos dos candidatos para celular.

Com uma novidade: a geopropaganda, que será um divisor de águas em termos de uso de dados das pessoas para influenciar a opinião pública e disseminar desinformação, segundo Samuel Woolley, diretor do Programa de Pesquisa em Propaganda da Universidade do Texas em Austin.

A geopropaganda usa informações sobre a localização das pessoas, recolhidas por meio de aplicativos para celular, para customizar mensagens e anúncios políticos por SMS, e-mail, Facebook, Google e outras plataformas.

Segundo Karl Rove, decano dos estrategistas políticos republicanos, os partidos vivem hoje uma “corrida armamentista de dados”.

“Transformamos o Comitê Nacional Republicano em uma das maiores operações de coleta de dados da história dos EUA”, disse Brad Parscale, diretor da campanha de Donald Trump, em evento em setembro do ano passado.

Parscale foi o responsável pela bem-sucedida estratégia digital que ajudou a eleger Trump em 2016, com base em milhares de anúncios diferentes no Facebook, direcionados a grupos específicos de eleitores.

Agora, no entanto, a campanha de Trump quer depender cada vez menos das plataformas de internet, uma vez que, para os republicanos, as plataformas não são confiáveis.

O Twitter proibiu anúncios políticos e passou a rotular tuítes do presidente americano por violarem regras sobre integridade de eleições e glorificação da violência.

O Facebook se recusa a checar a veracidade de anúncios políticos, mas fez algumas mudanças em seu algoritmo que desagradaram os marqueteiros. O Google deixou de permitir algumas maneiras de microdirecionamento de anúncios políticos nos EUA.

Por isso, a combinação do aplicativo Official Trump 2020 e de envios maciços de SMS é a maior aposta da campanha de reeleição do republicano.

Lançado em abril, o aplicativo já foi baixado 780 mil vezes, segundo dados do Apptopia. Ele fornece “notícias” para os usuários, normalmente textos com títulos enganosos e propaganda política —um deles era “Top 8 momentos da live desastrosa, constrangedora e epicamente tediosa de Joe Biden”.

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, foi pioneiro nesse tipo de aplicativo, com o seu NaMo app, lançado em 2015.

O NaMo já foi baixado mais de 10 milhões de vezes na loja de aplicativos para Android e coleta uma infinidade de dados, como nome, telefone e lista de contatos —a não ser que a pessoa ativamente restrinja o acesso a essas informações.

São esses os dados que podem ser usados para direcionar de forma mais eficiente as mensagens das campanhas.

Diferentemente do Official Trump 2020, o aplicativo do democrata Joe Biden, o Team Joe, concentra-se na chamada organização relacional.

Ele solicita acesso à lista de contatos do usuário, identifica eleitores que são “persuasíveis” e pede que a própria pessoa entre em contato com eles para convencê-los a sair de casa e votar, por exemplo. O aplicativo também absorve dados, mas bem menos do que o do republicano.

Ao baixar o aplicativo de Trump, o usuário concorda em fornecer seu número de celular, e-mail, endereço, dados sobre localização e controle sobre a função bluetooth do aparelho. O aplicativo usa um software da Phunware, empresa que oferece serviços de publicidade focados no “rastro digital”.

O software recolhe dados sobre onde o usuário esteve e os vende a outras empresas que, a partir disso, podem criar mensagens específicas para frequentadores de clubes de tiro ou cassinos, por exemplo.

Um anúncio no YouTube pode instar o usuário a votar em determinado candidato, porque sabe que o eleitor esteve em uma marcha contra o aborto.

Além disso, os marqueteiros políticos combinam as informações de localização com as das mídias sociais e os dados obtidos dos “data brokers” como o Acxiom, empresa especializada em coletar informações de fontes públicas e privadas.

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Fonte: Folha de S. Paulo