Opinião: Resposta da Nova Zelândia ao COVID-19, quando tudo conspira para o bem comum

Peter A. Whigham* e Eduardo de Rezende Francisco**

A Nova Zelândia é um grande exemplo de nação em que a resiliência é natural, fruto de uma visão sustentável de educação e oportunidade para todos. Tudo conspira para dar certo – população esclarecida e instruída, governo e sociedade civil trabalhando juntos, e liderança reconhecida – a primeira-ministra Jacinta Adern.

Não é à toa que o país obteve respaldo para adotar desde o início medidas rigorosas de combate ao COVID-19. Semanas depois anunciou o fim da transmissão local comunitária e recentemente começou a retomar as atividades econômicas, sociais e educacionais. Mas é claro que as condições geográficas do país, pequeno e isolado ao sul da Austrália, colaboraram para tal.

Peter Whigham é professor da Universidade de Otago, mais antiga e uma das maiores universidades da Nova Zelândia. Fica em Dunedin, segunda maior cidade da Ilha Sul, com pouco mais de 110 mil habitantes. Peter foi um dos idealizadores do Spatial Information Research Centre e é professor convidado da FGV EAESP, tendo estado no Brasil em duas oportunidades, 2016 e 2019, para ministrar cursos de Data Science e GeoAnalytics.

Tive o privilégio de tê-lo como co-orientador do doutorado e colega nos cursos ministrados na Escola de Inverno da FGV EAESP. Peter aceitou meu convite para tecer algumas palavras sobre as condições que fizeram da Nova Zelândia um país exemplo no combate à pandemia do novo coronavírus.

Reproduzo abaixo (em português e a versão original em inglês, em seguida) a entrevista que ele me concedeu, ainda em meados de abril, seguida de uma atualização de 18 de maio.

Resposta da Nova Zelândia ao COVID-19

A Nova Zelândia é um país insular soberano geograficamente isolado e pouco povoado. O país possui duas principais massas terrestres (as ilhas Norte e Sul), além de um grande número de ilhas menores. A maioria dos aproximadamente 5 milhões de pessoas reside entre as ilhas Norte e Sul; a Ilha Norte é a maior região, com a cidade Auckland com a maior população, de aproximadamente 1,5 milhão de habitantes. A diversidade étnica é fruto do convívio entre europeus, Māoris, asiáticos e habitantes das ilhas do Pacífico. Cerca de 70% são europeus e 30% indígenas Māori. A Nova Zelândia possui uma estrutura governamental estável como uma democracia parlamentar com total independência estatutária da Grã-Bretanha. No entanto, ainda existem fortes laços com a monarquia britânica com a rainha da Inglaterra, chefe de estado. A Nova Zelândia ocupa uma posição de destaque nas comparações internacionais de saúde, educação, liberdades civis e liberdades econômicas.

O primeiro caso de COVID-19 na Nova Zelândia foi relatado em 28 de fevereiro de 2020. Um pequeno número de casos foi posteriormente relatado nas semanas seguintes, todos relacionados a viagens internacionais. No dia 21 de março, um sistema de nível de alerta foi introduzido. Os níveis variaram de 1 (menor risco de infecção) a 4 (maior risco com maiores restrições). Os esclarecimentos sobre quais atividades econômicas e sociais poderiam ser realizadas para cada nível de alerta foram imediatamente informados. Em 25 de março, foram registrados 50 novos casos de COVID-19, elevando o número total de casos confirmados e prováveis para 205. Um estado de emergência foi declarado e o nível 4 de alerta anunciado.

– O que mudou no cotidiano da população com a chegada de medidas para combater a disseminação do COVID-19?

A Nova Zelândia está sob o nível de alerta 4 há mais de 4 semanas. No nível de alerta 4, apenas serviços essenciais (suprimento de alimentos, controle de fronteiras, tribunais, policiais, serviços financeiros, assistência médica, manutenção de infraestrutura, entrega de produtos de aquecimento, como gás e lenha e transporte limitado para trabalhadores essenciais) podem operar. As pessoas só podem ir ao supermercado para adquirir comida. As viagens não essenciais são proibidas e as pessoas devem ficar em casa. O conceito de “bolha” – aquelas pessoas com quem você vive – foi claramente definido com a expectativa de que você só interaja com essas pessoas. Os indivíduos foram autorizados a se exercitar em sua vizinhança, mas devem manter o distanciamento social de cerca de 2 metros. Todas as reuniões de pessoas fora de uma “bolha” são proibidas. Até 7 de abril, 291 violações das restrições de nível 4 haviam ocorrido, com 16 pessoas sendo acusadas. No dia 21 de abril, uma pessoa foi condenada a um mês de prisão por violar as restrições de bloqueio.

– As pessoas e as famílias em geral aderiram naturalmente a essas medidas ou houve alguma resistência por parte da população (especialmente as mais pobres)?

Em geral, os requisitos para o nível de alerta 4 foram aceitos e seguidos. Houve pouca resistência às restrições, provavelmente porque o governo foi transparente na tomada de decisões e nos argumentos para essas restrições. Todos os dias, às 13h, a primeira-ministra Jacinta Adern e uma representante do Ministério da Saúde apresentam na televisão nacional as últimas notícias sobre o estado do vírus, os novos casos, detalhes de clusters e o impacto das restrições sobre o vírus na economia. Adern apresenta um rosto compassivo, coerente e sincero do governo, com ênfase na saúde e na segurança das pessoas. Os neozelandeses confiam nela e isso se reflete na aceitação das restrições.

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* é diretor do Spatial Information Research Centre e professor da University of Otago, na Nova Zelândia.

** é professor de Data Science, GeoAnalytics e Big Data da FGV EAESP.


Fonte: O Estado de S. Paulo