Opinião: O Censo Brasileiro de 2020

 

Davi Lago*

Estamos às vésperas de 2022: ano do bicentenário da independência, do centenário da Semana de Arte Moderna, de novas eleições presidenciais. Vinte e dois também aponta para o próximo século, o século XXII depois de Cristo, século de nossos netos, bisnetos, tataranetos. A coincidência – ou sincronia – de efemérides promete um 2022 agitado. É natural que inúmeras articulações políticas, acadêmicas, culturais movimentem o cenário brasileiro nesta reta final para o ano icônico. Afinal, será um ano singular para se refletir sobre a identidade brasileira, quem somos, o que queremos, para onde iremos como Brasil. Uma das mobilizações essenciais neste percurso ocorre ano que vem: o Censo Brasileiro de 2020 organizado pelo IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

No Brasil, o censo é realizado desde 1872, sendo que desde 1940 é organizado pelo IBGE. Fundado em 1936, o instituto teve como idealizador, grande incentivador e primeiro secretário-geral, Mário Augusto Teixeira de Freitas, um advogado e estatístico que realizou voto de pobreza pela Ordem Terceira de Francisco e ficou conhecido como Irmão Nicodemus. Este brasileiro realizou uma pesquisa estatística no início dos anos 1930 sobre as condições da educação primária e publicou a obra “O que dizem os números sobre o Ensino Primário”. Este esforço jogou luz nas deficiências organizacionais da educação brasileira e comprovou a utilidade dos dados para a elaboração de políticas públicas.

Este é o ponto fundamental: através dos levantamentos de dados podemos compreender melhor nossos retrocessos, estagnações e avanços. Os dados auxiliam a leitura do nosso atual momento. Por exemplo, por volta de 1900 o Brasil tinha 14 milhões de habitantes e apenas 10% viviam em áreas urbanas. Hoje, o Brasil se aproxima dos 210 milhões de habitantes com 86% vivendo em cidades. O crescimento da taxa de urbanização brasileira de 1950 até o presente é impressionante: 9,4 vezes. Nenhum outro país no planeta teve crescimento semelhante. Conforme explica Pedro Malan: “para uma comparação, o aumento da população urbana nos Estados Unidos entre 1950 e hoje foi inferior a 2,7 vezes. Nem China nem Índia, com populações urbanas de, respectivamente, 57% e 33% do total – apesar de, em números absolutos, terem populações urbanas muito maiores que a do Brasil – , apresentaram aumento por um fator sequer perto de 9,4 vezes de 1950 ao presente” (130 anos: Em busca da República, Ed. Intrínseca).

A compreensão da nossa trajetória permite o desenvolvimento de diagnósticos mais acurados das nossas demandas. Assim, o Censo de 2020 nos auxiliará a compreender melhor a realidade concreta – algo tão urgente diante da profusão de opiniões, palpites, boatos, memes e “fake news” que se passam por dados. Como afirma Cristina Costa “há muito tempo se desenvolve, em todos os países, a sociometria, ou seja, o levantamento sistemático de dados a respeito da população com relação a sexo, idade, profissão, religião, nacionalidade, grau de instrução, renda individual e familiar […] Os dados censitários são importantes para políticas públicas desenvolvidas pelos governos, para investidores nacionais e internacionais” (Sociologia: introdução à ciência da sociedade, Ed. Moderna). Nossos problemas são muito reais, portanto, a coleta confiável e o estabelecimento de um banco de dados censitários fidedignos formam a base elementar para a elaboração de soluções reais.

* Professor e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia (PUC-SP).

Fonte: G1