Opinião: A cidade gerida por dados

 

Ana Lucía Moya*

Quando olha para o seu telemóvel ou tablet, o que vê? Pixels? Imagens? Distracção digital? Eu vejo dados.

Diariamente, geramos quantidades enormes de informação, um rasto de migalhas binário que forma um mapa com os nossos interesses, hábitos e interacções. Para nós, que trabalhamos na área do planeamento urbano, estes conjuntos de dados díspares representam uma mina de ouro de oportunidades. Se aproveitados da maneira adequada, os dados gerados pelos utilizadores podem ajudar os urbanistas a construírem cidades mais sintonizadas com as verdadeiras necessidades das pessoas.

Só há um problema: o mundo está, literalmente, a afogar-se num mar de dados. Para fazerem uso de toda a informação que as pessoas produzem de forma involuntária, os urbanistas têm de melhorar a forma como os dados são capturados, analisados e partilhados entre os sectores público e privado. Se formos bem sucedidos, alguns dos maiores obstáculos com que o mundo se confronta – desde a pobreza até às alterações climáticas – poderão tornar-se um pouco mais geríveis.

Uma das inovações mais significativas adoptada pelas agências de planeamento de todo o mundo é o conceito de “dados abertos”, ou seja, informação que pode ser usada por qualquer pessoa com o intuito de melhorar qualquer aspecto da vida pública. Num contexto de dados abertos, os conjuntos de dados provenientes dos transportes, da educação, dos cuidados de saúde e de muitos outros sectores municipais são disponibilizados de modo a optimizarem-se os actuais serviços ou a criar novos serviços. A título de exemplo, a Base Adresse Nationale de França reúne as informações de localização de modo a melhorar a análise espacial e os tempos de resposta a emergências, ao passo que a Urban Data Platform da União Europeia facilita a partilha de dados em toda a UE.

Quando governos, universidades, centros de investigação e pólos de inovação trabalham em conjunto de modo a partilharem informação, tornam-se verdadeiros parceiros no processo do planeamento urbano. A utilização de dados abertos pode também promover a transparência e fomentar a confiança na tomada de decisões e definição de políticas oficiais por parte dos governos.

É certo que há muitos desafios a superar antes de os governos poderem abrir as comportas da informação. Os quadros jurídicos deverão proteger o anonimato individual; devem adoptar-se protocolos de dados de modo a garantir que as decisões não excluem a população mais arredia da tecnologia; e são necessárias plataformas fiáveis que permitam a partilha de dados entre agências e municípios sem risco de sabotagem.

Contudo, assim que as dificuldades tenham sido superadas, as oportunidades para um melhor planeamento serão praticamente intermináveis. As sementes do detalhe digitam iluminam a forma como as pessoas se movimentam e interagem com o ambiente edificado. Quando conjugada com dados provenientes de fontes governamentais – como a informação sobre a qualidade do ar, padrões de tráfego, crime, ou estatísticas sobre saúde –, a informação gerada pelo utilizador pode conduzir a cidades mais sustentáveis. A título de exemplo, ao mapearem os dados sobre como e quando as pessoas viajam, os urbanistas conseguem saber onde devem aumentar o investimento em meios de transporte menos poluentes – como os sistemas de partilha de bicicletas ou postos de carregamento de carros eléctricos.

A interacção entre os transportes e os desafios inerentes ao clima é uma das áreas mais promissoras para se testarem soluções de dados abertos. Actualmente, praticamente metade da população mundial vive em cidades, mas as cidades representam aproximadamente 75% das emissões globais de dióxido de carbono, que são em grande medida atribuíveis aos transportes. Em muitas regiões do mundo, as estratégias de desenvolvimento urbano do século XX criaram cidades dispersas e centradas nos automóveis; mas o ritmo acelerado da urbanização tornou esta abordagem insustentável.

Perante estes desafios, os dados abertos tornaram-se uma ferramenta-chave para a redefinição do processo de planeamento urbano. É por isso que o meu governo está a usá-los para compreender de que forma sectores como o dos transportes – bem como o da agricultura, energia e outros – estão a influenciar as estratégias de mitigação das alterações climáticas. O Sistema Nacional de Métricas das Alterações Climáticas da Costa Rica, que está actualmente a ser desenvolvido, está a ser projectado como uma ferramenta de dados de fontes abertas que irá integrar a informação das agências a nível nacional num único portal público.

O objectivo é ajudar a melhorar a tomada de decisões e a melhorar a capacidade do país de monitorizar e cumprir as metas relativas às alterações climáticas. O sistema acabará por ser usado no sentido de envolver os costa-riquenhos em programas de sustentabilidade, ao passo que o código-fonte será partilhado com outros países em desenvolvimento.

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* Ana Lucía Moya é coordenadora de Transportes Sustentáveis e Mobilidade no Centro de Desenvolvimento Urbano da Costa Rica.

Fonte: Jornal de Negócios