Opinião: Censo com custo racional

 

Martha Mayer*

Desde o discurso do ministro Paulo Guedes na posse de Susana Guerra no IBGE, artigos, entrevistas e comentários em defesa do Censo 2020 inundam a imprensa e as redes sociais. A tônica é criticar o pedido do ministro para reduzir o questionário. Falam sobre a importância das informações para o planejamento e o combate às desigualdades. Certamente, o ministro sabe disso, e ele não propôs eliminar o Censo do programa do IBGE. No entanto, nessas reações não se levam em conta que o tamanho dos questionários é assunto discutido em todo o mundo desde o Censo 2000.

Muitos fatores têm levado os países à busca de alternativas. Os censos são caríssimos, mas destaco o esforço dos institutos para viabilizar operação cada vez mais complexa. Todos os países têm relatado dificuldades para se obter a informação com a qualidade necessária. Os custos são crescentes, devido à maior mobilidade das populações, à maior complexidade dos arranjos familiares e à maior diversidade de situações em todos os campos do estudo. A tecnologia, aliada na qualidade e na eficiência da operação, avança rapidamente, e não há como incorporar os avanços sem aumentos de custos.

Obter a informação é tarefa cada vez mais custosa, mesmo com as possibilidades abertas pela internet. Encontrar os moradores nos domicílios, falta de tempo das pessoas para a entrevista, radicalismos contra governantes, questões de segurança e outras são dificuldades crescentes.

No planejamento do Censo 2010, muito se discutiu para retirar perguntas do questionário. Mas os cortes propostos não tiveram êxito, e o questionário ainda cresceu por demandas de usuários. Assim, em 2010, o IBGE caminhou na contramão. Tempos de fartos recursos federais.

A partir de 2012, para racionalizar o sistema estatístico e reduzir custos, o IBGE iniciou a Pnad Contínua, em substituição à Pesquisa Mensal de Emprego e à Pnad Anual. O Sistema Pnad Contínua tem grande potencial para dar conta de maior diversidade de temas. Não tem o objetivo de substituir o questionário longo do Censo, como fizeram os Estados Unidos, com a American Community Survey, ou a França, que combina censo com pesquisa. O próprio IBGE realizou estudos, buscando alternativa semelhante para atender às demandas de informações para áreas menores, tradicionalmente atendidas pelo Censo.

Portanto, não se deve reagir com assombro a propostas para diminuir o questionário de 2020. Melhor é reagir com propostas. Também não é um assombro mudar o questionário um ano antes. O IBGE tem experiência, e a tecnologia favorece a prática. Claro, devem-se evitar mudanças que fujam ao planejamento, mas mudanças necessárias podem e devem ser feitas. E já o foram em censos passados.

O IBGE vem investindo na transformação de registros administrativos em estatísticas relevantes que possam substituir pesquisas e censos. É um objetivo estratégico que precisa de mais recursos. Essa deve ser a tônica dos que querem defender o Sistema Estatístico Nacional junto aos novos dirigentes.

Mais que protestos, o que podemos fazer é exercitar a análise crítica sobre a questão. E buscar alternativas para diminuir os custos monetários e para os informantes. A colaboração daqueles com experiência em censos nas áreas da operação, análise e estudos é fundamental. O tamanho do questionário não é o item de custo mais importante, mas não pode ser negligenciado. Sobretudo, não se pode desprezar o fato de que, quanto maior o questionário, mais difícil obter qualidade nas respostas e maior é o risco da operação, o risco de jogar dinheiro fora. Não somos ricos e, mesmo que o fôssemos, há uma questão ética.

* Membro da Comissão Consultiva do Censo 2010 e do Censo 2020 e foi diretora de pesquisas do IBGE

Fonte: O Globo