Crônica: Uma carta a Milton Santos sobre o centro de Salvador

Tatiana Mendonça*

Umas décadas poucas, Milton, e poderíamos ser colegas de redação, sentados os dois à frente de uma máquina de escrever naquele prédio imponente na beira da praça Castro Alves. E o senhor talvez não, mas eu estaria olhando o mar em busca de alguma inspiração. Preciso dela agora para contar do seu livro, aquele que escreveu juntando o que viu e assuntou perambulando pelo centro na década de 1950, ali no entorno onde o A TARDE funcionava e onde o senhor trabalhava – essa honra que haverá de nos engrandecer sempre.

Achei curioso como o senhor, formado em Direito, professor e, por um tempo, jornalista, tornou-se doutor em Geografia com um estudo sobre o centro de Salvador defendido lá longe, na França. O que eles entenderam de nós? A mesma pergunta fica me assombrando ao ver aquele monte de turistas passeando no Pelourinho. O que eles entendem de nós nas poucas horas que andam por ali? Não deve ser muito. A gente mesmo que vive aqui tantas vezes se espanta. De ser uma cidade tão deslumbrante e tão perversa.

Fiquei sabendo mais dela, me sentindo quase íntima, lendo o seu “O Centro da Cidade do Salvador”, apresentado em 1958 e lançado aqui no Brasil em 1959, há 60 anos, portanto. Salvador tinha então “mais ou menos 550 mil habitantes”, como o senhor escreve. Hoje, são mais ou menos 2.857.329 pessoas, pelas estimativas do IBGE.

Mudou muita coisa, Milton, mas tem um tanto que permanece igual, como aquela sua descrição preciosa: “Salvador oferece àqueles que a ela chegam por via marítima o espetáculo de um presépio, suas casas parecendo empilhadas umas sobre as outras, bem como a viva e chocante impressão de contraste a quem percorre as ruas do centro: largas avenidas retilíneas, sobre as superfícies planas conquistadas ao mar, ladeada de altos e luxuosos imóveis de construção recente, na Cidade Baixa, ruas estreitas e sinuosas da Cidade Velha, enladeiradas, com velhos casarões degradados”.

Cabe hoje ainda, perfeitamente. E ri do senhor, impaciente, com o converseiro do povo atrapalhando a passagem na rua Chile, que naquela época pré-shopping era a “vitrine da cidade”. “Para agravar ainda mais as más condições de circulação, há o costume que as pessoas guardam de ficar em pé, durante várias horas, sobre os passeios e mesmo sobre o meio-fio, na rua Chile e nas ruas adjacentes, a conversar incessantemente: marca-se encontro na rua e há grupos que se reencontram diariamente às mesmas horas para falar de política e de coisas amenas. Atravessar a pé a rua Chile, após as 17 horas, na hora do rush, não é coisa fácil”.

As lojas luxuosas deram lugar às populares, o senhor sabe, mas há agora dois hotéis, o Fera e o Fasano, recém-reformados, que parecem dizer, majestosos, que a rua é verdadeiramente vocacionada à sofisticação, descontando-se os intervalos de penúria.

O governador empolgou-se com a cena e disse outro dia que os casarões abandonados no centro – e que a prefeitura estima em cerca de 500 – deveriam dar lugar a “hotéis de luxo”, após as obras que está fazendo em algumas ruas da região. O que ainda o poder público não pôs em prática é um programa sério de moradia na área. E o que é que pode mesmo sobreviver sem gente dentro?

Persistiu uma tendência que o senhor já havia notado, de diminuição da população do centro – delimitado nos seus estudos como os distritos da Sé e do Passo, na Cidade Alta, e da Conceição da Praia e do Pilar na Cidade Baixa. “Se compararmos a população desses bairros com a da cidade inteira, vemos que ela não cessou de baixar desde meados do século XVIII, quando correspondia a 60% do total. Em 1940, não representava mais do que 7,9% e em 1950 cerca de 4,8%”. Hoje, se somarmos a população do Centro Histórico, do Comércio e do Santo Antônio, dá menos de oito mil almas, ou 0,3% da população da cidade, de acordo com dados de 2010, também do IBGE.

E está lá a sua explicação. “A população dos bairros centrais da cidade representa uma forma de utilização do velho quadro, as casas antigas, casas nobres e ricas hoje degradadas. Esse espaço é, entretanto, disputado por outras atividades, que pouco a pouco expulsam a população de certas ruas, agora ocupadas pelo comércio. Isso põe em relevo o valor dos efetivos demográficos aí presentes e evidencia a principal característica atual dessa população, isto é, sua pobreza”.

Os cortiços que o senhor descreve, os palacetes envelhecidos transformados em residência de famílias vivendo em condições miseráveis, perduram no Pilar, no Passo, na Conceição da Praia. E ao Pelourinho – que o senhor chamou de “bairro leproso”, a vida transformada em “verdadeiro inferno” com pessoas morando em cubículos onde “não há luz, nem ar e inexiste higiene” – a expulsão chegou no começo da década de 1990.

Foi revitalizado, propagandeiam, virou cenário para uma função que o senhor não previu entre aquelas listadas para o centro de Salvador (portuária, administrativa, comercial, bancária, industrial). Veio a turística, que de algum modo suplantou todas as outras. Os turistas chegam também pelo porto, feito mercadorias. O senhor iria se divertir com a cena deles aportando daqueles navios gigantescos, que mais parecem prédios, e tendo que atravessar um corredor polonês de gente oferecendo tours aos gritos, como se estivessem num pregão.

O New York Times publicou no começo deste ano uma lista com 52 lugares do mundo inteiro para ir em 2019. Daqui do Brasil, só tem Salvador. E ela está lá em destaque justamente por causa do Centro Histórico, e dos equipamentos turísticos que ganhou nos últimos anos, como o Museu do Carnaval. A cidade recebeu, só no ano passado, 9,3 milhões de turistas.

O que não é tão turístico assim, como a Baixa dos Sapateiros, vai se perdendo. O senhor escreveu que passava por ali o “fluxo mais considerável da cidade”, maior até que o da rua Chile, e agora a rua está no mais das vezes vazia, com os vendedores nas portas olhando o tempo passar. Ali no miolo, o Cine Jandaia, o Palácio das Maravilhas, perece, oco, abandonado. Era um dos 11 cinemas que havia no centro da cidade em 1956, imersos numa animação viva, como o senhor registra. Foi tombado em 2015 pelo governo do estado, e parece que vai até mudar de nome, mas até agora não há obra nenhuma à vista.

Conversei com um colega seu, o professor Clímaco Dias, e ele me contou que ainda usa, nas aulas que dá na Universidade Federal da Bahia sobre a geografia de Salvador, esse livrinho seu, que considera muito atual. Ele acredita que a obra marca sua saída de uma geografia mais descritiva para uma geografia humanista. “É uma arrancada para os trabalhos magníficos que ele produz na década de 1970 a 1990 quando passa a ser o que se auto-denomina, o Geógrafo do Terceiro Mundo”, disse sobre o senhor, baiano de Brotas de Macaúbas e vencedor do Prêmio Vautrin Lud, o Nobel da Geografia.

Falou também sobre a sua teorização de que os pobres, por sua própria existência, são fatores de “transformação” nas grandes cidades. “Não precisam nem fazer a política formal”, salientou. Clímaco acredita que o que se mantém mesmo nesse intervalo de seis décadas que distanciam seu registro do lugar é a participação popular no centro de Salvador. “Quando vejo os grupos de samba, o cotidiano das pessoas batendo perna na Av. Sete, na Rua Chile, é Milton Santos falando ali. Isso é de uma permanência e de uma resistência absoluta. O centro continua a ser um lugar de resistência”. Sinto que o senhor haveria de concordar.

* Colunista de A Tarde, Salvador

Fonte: A Tarde