Os dados são o novo petróleo e o Brasil ainda não despertou

 

A semana que passou foi marcada por diversas discussões sobre a inserção do Brasil no século XXI. Em uma rica entrevista a IstoÉ Dinheiro, o presidente da Intel no Brasil, Maurício Ruiz, traz algumas informações que mostram a dificuldade do país em ter políticas públicas compatíveis com estas necessidades. Para Ruiz, há a necessidade de um direcionamento estratégico. “O Brasil tem muitos problemas e tenta resolvê-los com soluções do século 20 em vez das do século 21”.

O executivo cita o problema das filas de atendimento de um posto de saúde para ilustrar a afirmação. “Me incomoda quando vejo a fila de distribuição de remédios. As pessoas esperam horas para buscar um remédio e, quando chegam ao guichê de atendimento, percebem que aquele medicamento não está disponível. Já existem métodos para saber onde essas pessoas que precisam desses remédios moram, quando elas precisam retirar os medicamentos e de quanto em quanto tempo elas terão de comparecer para fazer a retirada. Isso não é algo complicado de ser feito, mas requer investimento. Tecnologia melhora a vida do cidadão”.

No exterior, países desenvolvidos e em desenvolvimento já têm buscado inserções práticas do que se denomina “e-Infrastructures”, ou infraestruturas digitais, que permitem o uso da internet, big data, geolocalização e inteligência artificial como base de políticas públicas contemporâneas.

Como exemplo, em Toulouse, no sul da França, o CNES (Centro Nacional de Pesquisas Espaciais) mantém um programa que analisa as relações entre o clima, o meio-ambiente e a saúde, com o objetivo de prevenir e antecipar epidemias, utilizando dados fornecidos por satélites de observação que transitam em diferentes órbitas. O instituto francês tem uma parceria de longa data com o INPE (Instituto de Pesquisas Espaciais) e uma política pública brasileira consistente neste segmento, empregando em larga escala as técnicas desenvolvidas no INPE e em outros órgãos de tecnologia, poderia ter evitado o retorno de epidemias como a febre amarela, ou mesmo a proliferação da dengue, da zika e da febre chikungunya.

Nesta semana foi ainda anunciado que no Gabão, país equatorial da África, os satélites serão empregados para monitorar o furto de marfim, sendo que os elefantes serão equipados com rastreadores GPS. Isso tudo criará uma base de dados para as autoridades elaborarem planos mais efetivos de preservação da espécie. No Gabão já se percebeu que um país precisa de dados confiáveis para gerir o território no século XXI.

Em que pese haver louváveis exceções, este tipo de iniciativa no Brasil é inversamente proporcional ao tamanho do país. Reportagem publicada pela Gazeta do Povo, de Curitiba, mostra com clareza como esta ausência de planejamento, pelas políticas públicas, sacrifica o futuro da nação. Para Ricardo Torres, gestor internacional de fundos baseado em Luxemburgo, “é preciso separar o planejamento da política momentânea. Os planos precisam funcionar como uma espinha dorsal”, pois o pensamento focado no curto prazo pode ser nocivo no longo prazo. A falta de investimento em saúde, educação e em e-Infraestruturas fazem com que o Brasil esteja na contramão do mundo, com o país regulando em demasia onde não seria necessário e deixando de regular o que efetivamente o faria se preparar para os desafios do século XXI.

Se os dados serão o petróleo do século XXI, uma rápida analogia com uma das principais frases do século XX, “o petróleo é nosso!”, imediatamente nos faria defender o mote “os dados são nossos!”. Mas talvez o correto seja perguntar “quais dados são nossos?”, ou seja, desenvolver meios de construir políticas públicas para viabilizar uma e-infraestrutura enquanto bem de domínio público.

Se não forem tomadas medidas para capacitar o país em e-infraestruturas, em toda a cadeia produtiva, o impacto poderá ser cruel. Em que pese o país ter sido um dos pioneiros nos direitos dos usuários descritos no Marco Civil da Internet, a ausência de uma gestão pública integrada, e interoperável, dos dados e da geoinformação pública, podem nos tornar reféns de soluções internacionais ricas em percepções, mas de frágil organicidade perante as políticas públicas.

Fonte: Blog do Ugeda